Em 2002, o estudo Women's Health Initiative (WHI) publicou resultados que assustaram mulheres e médicos do mundo inteiro: a terapia de reposição hormonal aumentava o risco de câncer de mama. Mais de vinte anos depois, ainda vivemos as consequências desse medo — e de uma leitura incompleta dos dados.
O que o estudo WHI realmente mostrou
O WHI usou estrogênio equino conjugado (hormônio de origem animal) combinado com medroxiprogesterona acetato (progestina sintética). Em mulheres que usaram essa combinação por mais de cinco anos, houve aumento pequeno no risco de câncer de mama — em torno de 8 casos adicionais por 10.000 mulheres por ano.
O que frequentemente não é mencionado: mulheres que usaram estrogênio isolado (sem útero) tiveram redução do risco de câncer de mama no mesmo estudo.
O que mudou desde 2002
A medicina avançou. Hoje sabemos que:
O tipo de hormônio importa. Progesterona bioidêntica (igual à produzida pelo ovário) tem perfil de segurança diferente da progestina sintética usada no WHI. Estudos europeus, especialmente o E3N, mostram que progesterona bioidêntica combinada com estrogênio transdérmico não aumentou o risco de câncer de mama.
A via de administração importa. Estrogênio transdérmico (gel, adesivo) não passa pelo fígado — tem menor efeito sobre coagulação e menor risco de trombose do que o oral.
A idade de início importa. Reposição iniciada próxima à menopausa, na chamada "janela de oportunidade," tem perfil de risco diferente de reposição iniciada muitos anos depois.
O que é contraindicação real
Câncer de mama hormônio-dependente ativo ou recente, trombofilia grave não controlada e alguns tipos de doença hepática são contraindicações reais. Essas situações precisam ser avaliadas caso a caso.
Histórico familiar de câncer de mama não é contraindicação absoluta — é um fator que entra na avaliação de risco-benefício.
A decisão é individual
Reposição hormonal não é indicada para todas as mulheres. Também não é proibida para a maioria delas. É uma decisão médica individualizada, baseada nos sintomas, no perfil de risco, nas preferências da paciente e nos objetivos do tratamento.
O que não faz sentido é recusar uma avaliação por medo de uma resposta que ainda não foi dada.
Perguntas frequentes
Este conteúdo é informativo e não substitui consulta médica. Antes de usar medicamentos ou suplementos, busque um profissional de saúde. Dra. Milena Jácome — CRM-PB 10744.
